O que você precisa saber sobre o impasse no Estreito de Ormuz

Os Estados Unidos e o Irã trocaram ataques nos últimos dias, o que reduziu as esperanças de uma paz duradoura no Oriente Médio – ou mesmo de um rápido retorno à normalidade -, apesar de um acordo para encerrar a guerra firmado no início deste mês.

As forças americanas bombardearam instalações iranianas entre a noite de sábado, 27, e a madrugada de domingo, 28, em retaliação aos disparos do Irã contra navios comerciais que passavam pelo Estreito de Ormuz, informou o Exército.

Horas depois, os governos do Bahrein e do Kuwait relataram ter abatido uma onda de mísseis balísticos e drones iranianos que se aproximavam. Não houve relatos imediatos de grandes danos ou vítimas.

Os ataques repetidos ressaltaram como os entendimentos que sustentam o cessar-fogo entre os EUA e o Irã permanecem vagos e frágeis.

As conversas para um acordo final que limite o programa nuclear iraniano continuam paralisadas após uma rodada de negociações entre o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e líderes do Irã na Suíça, no início deste mês.

Por que os EUA e o Irã estão entrando em conflito novamente?

O presidente dos EUA, Donald Trump, comemorou a trégua assinada com o Irã há duas semanas e afirmou que ela traria paz e segurança para toda a região. O acordo deveria encerrar a guerra entre EUA e Israel contra o Irã, ao adiar os principais pontos mais sensíveis, como o programa nuclear iraniano, que seria negociado em futuras conversas ao longo de dois meses.

A principal conquista do acordo foi o próprio cessar-fogo, que Trump esperava que também encerrasse o controle do Irã sobre Ormuz, uma das mais importantes rotas de transporte de petróleo e gás do mundo.

O Irã bloqueou o estreito após ataques dos EUA e de Israel no fim de fevereiro.

Na quinta-feira, 25, o Irã bombardeou o navio cargueiro Ever Lovely, que passava pelo lado do estreito próximo a Omã. O ataque ocorreu horas depois de o Irã ter alertado que os navios só poderiam trafegar por suas águas, mas muitos passaram a usar a rota alternativa omanense.

As forças americanas responderam com uma série de ataques na sexta-feira, 26, o que levou a novos ataques com drones no sábado contra outro navio, o Kiku, de bandeira panamenha, e contra o Bahrein, aliado dos EUA. Ambos os ataques foram amplamente atribuídos ao Irã.

Autoridades iranianas não confirmaram nem negaram os ataques aos navios. O Irã frequentemente atacou países árabes do Golfo durante a guerra, sob a justificativa de que tinha como alvo instalações militares dos EUA ou outros ativos americanos nesses territórios.

No domingo, houve uma nova rodada de ataques.

As forças americanas bombardearam alvos militares iranianos em retaliação ao ataque ao Kiku. Horas depois, o Irã afirmou ter disparado contra bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein. Não houve relatos de vítimas ou danos significativos.

O que está acontecendo no Estreito de Ormuz?

O governo Trump esperava que o acordo com o Irã reabrisse a via marítima e ajudasse a reduzir a disparada dos preços de energia causada pela guerra. Nos dias anteriores aos ataques mais recentes, o estreito registrou um aumento significativo na circulação de navios, muitos deles transportando petróleo iraniano.

Mas o acordo assinado pela administração Trump com o Irã deixou o futuro do estreito em aberto.

De acordo com o memorando de entendimento, o Irã deveria garantir a “passagem segura de navios comerciais sem cobrança por apenas 60 dias”. Depois disso, o país “conduziria um diálogo” com Omã sobre a “administração futura e os serviços marítimos” no estreito.

Trump afirmou que o estreito será “permanentemente livre de tarifas”. Mas o Irã disse que está discutindo a imposição de taxas de trânsito para navios, enfatizando seus “direitos soberanos sobre suas águas territoriais” em Ormuz.

Isso poderia se tornar uma fonte de receita para o governo iraniano, que enfrenta dificuldades financeiras, e representa um grande afastamento do status anterior à guerra, quando os navios tinham passagem livre pelo estreito.

Para o Irã, o estreito também tem servido como uma poderosa ferramenta de pressão nas negociações com os EUA.

O embaixador e representante permanente do Irã junto ao escritório da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, Ali Bahreini, afirmou que o país estaria preparado para fechar o estreito para chegar a um acordo sobre o futuro de seu programa nuclear.

“Todos nós reconhecemos que a economia mundial não consegue suportar o impacto do fechamento do Estreito de Ormuz”, disse.

O cessar-fogo pode se manter?

Os EUA e o Irã intensificaram a retórica nos últimos dias, acusando-se mutuamente de violar o cessar-fogo. Mas, embora ambos pareçam estar testando os limites um do outro e fazendo ameaças, analistas dizem que nenhum dos lados parece disposto a retornar a uma guerra em larga escala.

Para Trump, há desvantagens evidentes em voltar a um conflito que era amplamente impopular internamente, dividiu sua base republicana e elevou os preços dos combustíveis em um ano eleitoral.

O Irã também pode ver poucos benefícios em retornar à guerra.

Especialistas afirmam que seus líderes se consideram vencedores do conflito, por terem forçado os EUA a abandonar as exigências iniciais de derrubada do regime iraniano e de “rendição incondicional”.

Mas a aversão a uma guerra em larga escala não significa que os dois países consigam chegar ao acordo final sobre o programa nuclear iraniano previsto no cessar-fogo deste mês.

Vance se encontrou com o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, na Suíça, no início do mês, para conversas. Desde então, porém, houve poucas informações sobre qualquer avanço entre as duas partes.

Como chegamos até aqui?

Aqui estão alguns dos principais eventos desde o início da guerra entre os EUA, Israel e Irã:

  • 28 de fevereiro: Os EUA e Israel lançam ataques aéreos conjuntos contra o Irã, o que, segundo Trump, transformaria o Oriente Médio e eliminaria a ameaça do que ele chamou de uma “ditadura maligna e radical”.
  • 1º de março: O grupo militante Hezbollah, apoiado pelo Irã, arrasta o Líbano para o conflito ao disparar foguetes contra Israel em retaliação à morte do líder supremo do Irã.
  • Início de março: Os ataques iranianos com mísseis e drones contra instalações petrolíferas e navios-tanque praticamente fecham Ormuz.
  • 7 de abril: EUA e Irã anunciam um cessar-fogo de duas semanas.
  • 12 de abril: As negociações entre EUA e Irã terminam sem acordo, já que as duas partes não conseguem chegar a um consenso sobre pontos centrais, incluindo o estoque iraniano de urânio enriquecido e a reabertura de Ormuz.
  • 13 de abril: Os EUA iniciam um bloqueio dos portos iranianos.
  • 16 de abril: Israel concorda com um cessar-fogo de 10 dias com o Hezbollah no Líbano, posteriormente estendido.
  • 7 de junho: Israel ataca um bairro nos arredores de Beirute, onde o Hezbollah tem forte influência. O Irã responde com seus primeiros ataques com mísseis balísticos contra Israel desde o cessar-fogo.
  • 15 de junho: EUA e Irã assinam um memorando de entendimento que deveria suspender os combates por 60 dias.
  • 21 de junho: A primeira rodada de negociações começa na Suíça.
Autor/Veículo: O Estado de São Paulo