O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% (E30) para 32% (E32) pode causar problemas a longo prazo para parte da frota brasileira, afirmam associações e entidades dos setores automotivo e de combustíveis ouvidas pelo Poder360.
Representantes da indústria automobilística demonstram preocupação com a implementação do E32 sem a realização de testes de durabilidade. A deliberação do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), que aprovou o avanço da mistura, não incluiu avaliações de longo prazo para medir o desgaste de peças e a corrosão de componentes dos motores. Os ensaios consideraram apenas a viabilidade técnica imediata do novo combustível.
Os riscos apontados pelo setor não se aplicam a todos os veículos do país. Cerca de 80% da frota brasileira é composta por modelos flex, que funcionam normalmente com até 100% de etanol. O E32 pode causar problemas para cerca de 4,7 milhões de veículos —aproximadamente 20% da frota nacional— equipados com motores movidos exclusivamente a gasolina. Os efeitos devem ser sentidos principalmente por carros e motocicletas antigos ou importados, afirma Marcus Vinícius Aguiar, presidente da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva)..
Entre os modelos que exigem mais atenção estão: carros antigos movidos a gasolina, principalmente os carburados e desenvolvidos quando a mistura obrigatória continha 22%, 25% ou 27% de etanol;
veículos importados que não passaram por adaptação ao combustível brasileiro;
carros de alta performance e alguns híbridos cujo motor a combustão funciona exclusivamente com gasolina; motocicletas antigas movidas a gasolina, sobretudo as carburadas; motos importadas, especialmente modelos de maior cilindrada que não foram homologados para misturas elevadas de etanol.
Segundo Aguiar, esses veículos podem apresentar problemas porque foram fabricados antes da consolidação das misturas mais elevadas de etanol na gasolina ou, no caso dos importados, porque não foram “tropicalizados”, ou seja, preparados ou testados para as proporções de etanol utilizadas no Brasil.
O presidente da AEA afirma que não é possível determinar antecipadamente quais modelos podem sofrer danos e que o uso contínuo é a única forma de identificar se um veículo terá problemas com o E32. Um teste simples de funcionamento não permite detectar uma deterioração no motor, que pode aparecer somente depois de meses de uso ou de determinada.quilometragem. “São tantas variáveis que não dá para a gente afirmar: ‘Vai ter problema’. Para saber se vai ter problema, eu vou ter que fazer um teste. Pegar o motor do Renault e testar ele, pegar o motor do Volkswagen e testar ele. Depende do motor, da tecnologia. Tem motor que sente mais, tem motor que sente menos”, diz Aguiar..
Procurado pelo Poder360, o MME (Ministério de Minas e Energia), responsável pelos testes, disse que os ensaios de durabilidade dos componentes serão realizados posteriormente, durante os estudos para a mistura de 35% (E35), “não sendo necessários para a adoção do E32”. Eis a íntegra do relatório técnico elaborado pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que fundamentou a decisão (PDF – 29 MB).
“A decisão considerou a avaliação técnica da AVL List GmbH, referência internacional em engenharia automotiva, que concluiu não serem esperados impactos relevantes nos materiais dos sistemas de combustível da frota brasileira com a adoção do E32”, disse o MME.
Ensaios de durabilidade exigem que os veículos sejam submetidos, durante meses, a ciclos repetidos de aceleração, frenagem, partida e funcionamento. A diversidade da frota brasileira torna inviável testar, em curto prazo, todas as combinações de marcas, modelos, versões, motores e sistemas de transmissão. Na avaliação da AEA, uma investigação completa precisaria ser feita modelo a modelo e com participação direta das fabricantes.
MAIS ETANOL, MENOS LUBRIFICAÇÃO O etanol tem vantagens ambientais por ser um combustível mais limpo e ter octanagem superior à da gasolina, o que favorece o desempenho de motores projetados para utilizá-lo. Em contrapartida, tem menor poder calorífico e oferece menos lubricidade em comparação com a gasolina, afirma Aguiar.
À medida que o teor de etanol aumenta, componentes que entram em contato com o combustível, como válvulas, bicos injetores, bombas e partes do sistema de alimentação, podem ficar submetidos a maior atrito e, consequentemente, a danos.
PREOCUPAÇÃO NOS POSTOS Até a adoção do E30, o tema não havia provocado questionamentos com a mesma intensidade. Para o vice-presidente da Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes), Márcio Andrade, isso se deu porque o teor vinha sendo elevado gradualmente.
A passagem para 32%, no entanto, aproxima a mistura de um patamar que as entidades consideram mais preocupante para motores movidos exclusivamente a gasolina.
Ele compara a situação a um copo quase cheio: cada aumento isolado parece pequeno, mas uma nova gota pode fazer a água transbordar.“O etanol está crescendo, saiu de 10% inicialmente para 20%. Estamos indo para 32%, e a gente precisa ter mais segurança para que isso aconteça.”
Possíveis falhas decorrentes do aumento da proporção de etanol na gasolina preocupam o setor de combustíveis principalmente porque os postos costumam ser os primeiros alvos quando surgem problemas mecânicos.
O 1º a ser questionado pelo consumidor, quando há mau funcionamento do veículo, é o dono do posto, diz Andrade. “Se ele abastece, acende a luz da injeção eletrônica ali, dá o alarme no painel do carro, ele já volta no posto reclamando, falando que está adulterado.”
Além da possível desconfiança do cliente e das reclamações verbais, há também, segundo o vice-presidente da Fecombustíveis, risco de judicialização. Andrade afirma que, com um laudo mecânico apontando desgaste no motor em razão do combustível, o consumidor pode tentar processar o proprietário do posto.
E32 NA MIRA DO MPF A preocupação das entidades do setor automotivo foi levada à Justiça Federal na última 4ª feira (22.jul.2026). O MPF (Ministério Público Federal) entrou com uma ação civil pública para pedir a suspensão da implementação do E32. O órgão afirma que a decisão do governo foi tomada “sem a devida análise de impacto e sem demonstrar cientificamente a viabilidade da medida”.
Fonte: fecombustiveis