O mercado global de energia viveu uma das semanas mais dramáticas do ano. A consolidação do acordo entre Washington e Teerã, com a reabertura do Estreito de Ormuz, jogou o Brent para a faixa dos US$ 76–78 por barril — queda acumulada de quase 38% desde o pico de abril. No Brasil, o impacto nas bombas ainda depende de decisão da Petrobras, mas o cenário macroeconômico melhorou sensivelmente.
O acordo que mudou o tabuleiro do petróleo
O petróleo bruto estava sendo negociado em torno de US$ 76 o barril em 18 de junho de 2026, acumulando uma queda de cerca de 27% no último mês, à medida que os investidores assimilavam a melhora das condições de navegação no Estreito de Ormuz após a implementação do acordo de paz interino entre os EUA e o Irã, que encerrou um conflito prolongado responsável pela maior interrupção de fornecimento já registrada.
O Comando Central dos EUA anunciou que havia levantado as restrições ao tráfego nos portos iranianos e águas costeiras, enquanto o Centro Conjunto de Informação Marítima aconselhou os navios que transitam pelo estreito a seguir uma rota mais próxima da costa de Omã para reduzir o risco de minas. Petroleiros que estavam encalhados começaram a sair da via navegável na quinta-feira, e o Kuwait sinalizou que voltaria a aumentar a produção.
O desfecho é significativo. Nos meses de bloqueio, a crise afetou cerca de 20% do suprimento diário mundial de petróleo e volumes significativos de gás natural liquefeito (GNL), obrigando grandes empresas de navegação a suspender operações na área e empurrando o Brent para perto de US$ 100 o barril em alguns momentos.
O que esperar dos preços daqui para frente
A queda do Brent é expressiva, mas analistas pedem cautela antes de comemorar. A reabertura do Estreito de Ormuz reduz parte das preocupações do mercado global de energia, mas não deve provocar uma queda rápida nos preços dos combustíveis, já que nos últimos três meses o mercado global perdeu cerca de 2 bilhões de barris de petróleo, obrigando países a recorrer às reservas estratégicas, produtores a reduzirem a extração e milhares de navios-tanque a mudarem de rota.
O principal gargalo não está na capacidade de produzir petróleo, mas no transporte marítimo, nos seguros e na confiança operacional, o que significa que mesmo com o Estreito reaberto, a oferta de energia do Golfo deve continuar restrita por vários meses, limitando quedas mais acentuadas nos preços dos combustíveis.
Do ponto de vista financeiro, o Citi revisou sua projeção para baixo: o banco estima que o Brent deve fechar o terceiro trimestre de 2026 em torno de US$ 75 o barril, cair para US$ 70 no quarto trimestre e chegar a US$ 65 em 2027 — uma queda expressiva em relação às estimativas anteriores, que chegavam a US$ 110 o barril.
Brasil: alívio externo encontra travas internas
Para os consumidores brasileiros, o cenário externo favorável não se traduz automaticamente em gasolina mais barata na bomba. O Brasil não tem um repasse automático das variações globais para os postos, devido à política de preços individual da Petrobras, que busca não transferir a volatilidade do mercado internacional à sociedade brasileira.
Ainda assim, a queda do barril abre margem para movimentos relevantes. Com o petróleo podendo caminhar para abaixo de US$ 80, estrategistas revisaram suas expectativas de inflação para baixo de 5% ao ano — o que, se confirmado, ainda deixaria o IPCA acima do teto da meta do Banco Central.
No câmbio, a semana também foi positiva. A bolsa e o real exibiram apreciação diante do alívio na percepção de risco global com a reabertura do Estreito de Ormuz, com o dólar à vista chegando a operar abaixo de R$ 4,97 — o menor patamar registrado ao longo de um dia de negociação desde março de 2024.
Um dólar mais fraco reduz o custo de importação de derivados e pode aumentar a pressão sobre a Petrobras para repassar a queda ao consumidor. Vale lembrar que, em março, o governo federal já havia zerado as alíquotas de PIS/Cofins incidentes sobre a comercialização de diesel e lançado um programa de subvenção econômica de R$ 0,32 por litro para mitigar o impacto de reajustes anteriores.
Diesel e a preocupação com o agronegócio
O diesel continua sendo o combustível mais sensível politicamente. O combustível preocupa o governo do presidente Lula por ser o principal insumo energético do transporte de mercadorias e da safra agrícola — e qualquer pressão de custo no diesel se espalha rapidamente por toda a cadeia produtiva.
A boa notícia é que a queda do Brent, se sustentada, oferece a maior folga em meses para uma possível redução de preço nas refinarias. O mercado acompanha de perto se a Petrobras vai aproveitar a janela ou aguardar mais estabilidade nas cotações internacionais antes de agir.
Contexto: o que foi a Crise de Ormuz de 2026
Para os leitores que acompanham o setor, vale o resumo do cenário que antecedeu esta semana. O conflito entre EUA e Irã resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz, afetando cerca de 20% do suprimento diário mundial de petróleo e volumes significativos de GNL, com o Brent chegando a subir mais de 13% em apenas uma semana durante os picos de tensão.
O Estreito de Ormuz é o ponto mais estratégico do mercado global de energia: por ele passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, tornando-o um gargalo sem substituto à altura. A reabertura, ainda que parcial e sujeita a riscos de recaída, representa o maior alívio de oferta desde o início do conflito.
O mercado de combustíveis entra na semana de 22 de junho em modo de espera: os olhos estão voltados para a velocidade com que os petroleiros retomam a operação normal no Golfo, para o movimento da Petrobras em relação aos preços nas refinarias e para o comportamento do dólar — a tríade que vai definir se o consumidor brasileiro finalmente sentirá na bomba o alívio que o mercado internacional já está entregando.
Fontes: Trading Economics, CNN Brasil, Infomoney, Seu Dinheiro, Times Brasil, Correio Braziliense, Wikipedia (Crise do Estreito de Ormuz em 2026), Agência Petrobras.