Entre 14 e 18 de setembro, o mercado brasileiro viveu uma combinação de preços pressionados, medidas para conter reajustes e preocupação com o abastecimento. Apesar dos alertas localizados, autoridades e empresas afastaram o risco de falta generalizada de diesel.
A semana terminou com o mercado de combustíveis brasileiro dividido entre duas forças. De um lado, a escalada do conflito no Oriente Médio manteve o petróleo internacional acima de US$ 100 por barril e encareceu as importações. Do outro, o governo ampliou os mecanismos de proteção ao consumidor, enquanto a Petrobras evitou repassar imediatamente o aumento do diesel às distribuidoras.
Nos postos, porém, o alívio ainda não apareceu de forma uniforme. O etanol e o diesel S-10 foram os principais focos de alta nas pesquisas divulgadas durante a semana.
Etanol e diesel S-10 lideram as altas
O levantamento semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, divulgado na segunda-feira, 14, mostrou que os quatro produtos acompanhados nacionalmente ficaram mais caros entre 6 e 12 de setembro.
A gasolina comum subiu 0,31%, para uma média de R$ 6,53 por litro. O etanol hidratado avançou 2,28%, chegando a R$ 4,04. O diesel S-10 aumentou 1,31%, para R$ 6,97, enquanto o botijão de gás de 13 quilos teve elevação de 0,17%, para R$ 114,28. Os números são os dados oficiais mais recentes disponíveis para todo o país. Veja a síntese completa da ANP.
A pressão sobre o etanol foi atribuída, entre outros fatores, às chuvas nas regiões produtoras do Centro-Sul, que interromperam atividades, e ao aumento das compras pelas distribuidoras. Segundo a ANP, o movimento ocorreu apesar de uma safra robusta e de estoques elevados.
Outro levantamento, o Índice de Preços Edenred Ticket Log, confirmou a pressão sobre o biocombustível na primeira quinzena de setembro. Nessa pesquisa, feita a partir de transações em 21 mil postos, o etanol avançou 1,69%, para R$ 4,21 por litro. O diesel S-10 subiu 0,42%, alcançando R$ 7,11.
Em contrapartida, o diesel comum recuou 0,29%, para R$ 6,76, e a gasolina caiu 0,30%, para R$ 6,72. As diferenças em relação aos números da ANP decorrem dos períodos, das amostras e das metodologias de coleta. Confira o levantamento do IPTL.
As disparidades regionais continuaram grandes. No diesel S-10, o litro variou de R$ 6,44 no Rio Grande do Sul a R$ 8,15 no Acre. Para a gasolina, a menor média foi observada no Rio Grande do Sul, a R$ 6,27, e a maior em Roraima, a R$ 7,70.
Governo regulamenta mais R$ 1 de subsídio ao diesel
O principal anúncio da semana veio na quarta-feira, 16. O Ministério da Fazenda estabeleceu uma nova subvenção de R$ 1 por litro de diesel A rodoviário, com duração inicial de 30 dias.
O mecanismo foi criado para evitar que o aumento internacional do produto chegue integralmente ao mercado brasileiro. Ele se soma à subvenção anterior de R$ 1,12 por litro prevista na Medida Provisória nº 1.363, elevando para até R$ 2,12 por litro o conjunto de mecanismos de amortecimento disponíveis nas operações contempladas.
Na quinta-feira, 17, a Petrobras informou que faria um aumento nominal de R$ 1 por litro no preço do diesel vendido às distribuidoras, acompanhado de um desconto do mesmo valor dentro do programa. Na prática, o valor efetivamente cobrado pela estatal permaneceria inalterado. Leia o comunicado da Petrobras.
Isso não significa desconto automático de R$ 1 nas bombas. A medida atua no começo da cadeia, compensando produtores e importadores para impedir ou reduzir reajustes. Frete, mistura obrigatória de biodiesel, tributos, margens das distribuidoras e dos postos continuam participando da formação do preço final.
A nova subvenção complementa a redução de impostos que entrou em vigor em 10 de setembro e permaneceu válida durante toda esta semana. O governo cortou em R$ 0,63 por litro o PIS/Cofins sobre a gasolina e zerou essas contribuições sobre o etanol hidratado, uma redução de R$ 0,19 por litro. A desoneração está prevista, inicialmente, até 9 de outubro. Conheça as medidas anunciadas pelo Ministério da Fazenda.
Mercado alerta para restrições localizadas de diesel
A diferença crescente entre os preços praticados no Brasil e os valores internacionais voltou a provocar preocupação entre importadores e distribuidores. Como o diesel estrangeiro chega mais caro, empresas sem acesso suficiente aos mecanismos de compensação podem reduzir as compras externas.
Dados citados pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis indicavam apenas 120 mil metros cúbicos de diesel importado programados para outubro, dos quais aproximadamente 75% seriam trazidos pela Petrobras. O mês coincide com um período de maior consumo por causa do plantio da safra de verão.
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul também relatou atrasos e restrições na entrega de diesel a produtores rurais. A Petrobras, contudo, declarou estar cumprindo integralmente os contratos e afirmou ter importações planejadas para atender à demanda de setembro e outubro.
A ANP informou que não havia identificado risco de desabastecimento no Rio Grande do Sul. O Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis também disse não haver, até agora, indícios de falta do produto no mercado nacional.
O quadro, portanto, é de abastecimento mais apertado e sujeito a problemas pontuais, mas não de escassez generalizada. Entenda o alerta sobre a oferta de diesel.
Petróleo oscilou, mas continuou acima de US$ 100
No mercado internacional, a semana começou sob forte tensão. Na segunda-feira, ataques à infraestrutura energética da Arábia Saudita e a navios no Oriente Médio fizeram o Brent ultrapassar US$ 107 durante o pregão. O barril encerrou o dia a US$ 105,68, em alta de 1%. Veja o fechamento de segunda-feira.
Nos dias seguintes, notícias sobre a retomada mais rápida do oleoduto Leste-Oeste saudita e o envio de cargas adicionais por Omã aliviaram parcialmente os temores. Na quinta-feira, o Brent caiu cerca de 1%, mas permaneceu acima de US$ 100. Acompanhe a movimentação do petróleo.
A volatilidade continua relevante para o Brasil porque mais de 25% do diesel consumido no país vem de importações. Mesmo quando a Petrobras mantém seus preços, o petróleo caro e o câmbio pressionam os demais fornecedores e podem reduzir a atratividade das compras externas.
Gasolina com mais etanol entra novamente no debate
A mistura de etanol anidro na gasolina comum já está em 32% desde agosto, em caráter temporário. Nesta semana, avançaram as discussões sobre testes com a chamada E35, combustível com 35% de etanol.
A E35 ainda não está autorizada para venda. Antes de qualquer decisão, serão necessários testes de consumo, emissões, durabilidade de motores e compatibilidade de componentes. Depois dos estudos, uma eventual mudança terá de ser analisada pelo Conselho Nacional de Política Energética. Entenda o plano de testes.
O aumento da mistura pode diminuir a necessidade de gasolina importada e ampliar o uso de uma fonte renovável produzida no país. Por outro lado, exigirá acompanhamento dos preços do etanol e de possíveis efeitos sobre o consumo dos veículos.
O que observar na próxima semana
O primeiro ponto será o repasse das medidas tributárias e do novo subsídio. Como os preços percorrem diferentes etapas até chegar aos postos, o efeito pode variar entre regiões e estabelecimentos.
O segundo será o abastecimento de diesel no Sul e nas regiões agrícolas. Embora não exista indicação de falta nacional, estoques menores e importações reduzidas podem provocar atrasos ou restrições localizadas.
Também permanecerão no radar o petróleo acima de US$ 100 e a política de preços da Petrobras. O Tribunal de Contas da União marcou para 23 de setembro uma sessão extraordinária para analisar a governança e os critérios usados na precificação dos combustíveis pela estatal. Saiba mais sobre a análise do TCU.
Para o consumidor, a semana deixou uma conclusão clara: as medidas públicas conseguiram evitar uma alta ainda maior, mas não eliminaram as pressões. Etanol e diesel S-10 seguem mais caros, o mercado internacional permanece instável e a evolução dos preços dependerá tanto do repasse dos subsídios e cortes de impostos quanto do comportamento do petróleo e do abastecimento nas próximas semanas.