Combustíveis sob pressão: subsídios bilionários, queda do petróleo e cerco às fraudes marcam a semana

Entre 24 e 28 de agosto, mercado brasileiro acompanhou novas medidas para conter preços, avanço da fiscalização e aumento do etanol nas usinas

A semana de 24 a 28 de agosto de 2026 foi movimentada para o setor de combustíveis. Enquanto o petróleo recuou no mercado internacional após uma forte valorização, o governo federal reforçou os subsídios à gasolina e ao diesel. Paralelamente, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e outros órgãos públicos avançaram no combate às irregularidades da cadeia.

Governo libera mais R$ 3,15 bilhões para combustíveis

Um dos principais acontecimentos foi a publicação da Medida Provisória 1.388, que abriu crédito extraordinário de R$ 3,152 bilhões para reforçar os subsídios aos combustíveis.

Do total, R$ 2,552 bilhões serão destinados à produção e à importação de diesel rodoviário. Outros R$ 600 milhões atenderão combustíveis derivados de petróleo em geral.

Os subsídios informados pelo governo correspondem a R$ 0,44 por litro de gasolina e R$ 1,12 por litro de diesel. As medidas procuram reduzir os impactos da guerra no Oriente Médio e da alta dos preços internacionais sobre o mercado brasileiro, que ainda depende da importação de aproximadamente 10% da gasolina e de 25% a 30% do diesel consumidos no país.

Desde março, os créditos extraordinários destinados a medidas semelhantes já somam cerca de R$ 29 bilhões.

Subvenção à gasolina é prorrogada

O Ministério da Fazenda também prorrogou até 9 de setembro a subvenção de R$ 0,44 por litro de gasolina paga a produtores e importadores.

A data coincide com o fim da validade da medida provisória que dá sustentação ao benefício. O governo ainda avalia os instrumentos jurídicos que poderiam permitir a continuidade das ações, embora o ministro da Fazenda tenha afirmado que a intenção é encerrar os subsídios aos combustíveis em 2027.

A subvenção reduz o custo de quem produz ou importa o combustível, mas sua transferência integral para o preço nas bombas não é automática. O valor final também depende das políticas comerciais das distribuidoras, das margens dos postos, dos tributos e dos custos logísticos.

Petróleo recua, mas cenário internacional continua instável

Depois de acumular valorização de aproximadamente 13% na semana anterior, o petróleo começou a devolver parte dos ganhos.

O Brent encerrou a segunda-feira cotado a US$ 90,54 por barril e caiu para US$ 86,94 na quarta-feira. Mesmo com o recuo, o mercado permaneceu volátil diante das negociações entre Estados Unidos e Irã, das incertezas sobre a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz e dos ataques contra instalações energéticas russas.

Para o mercado brasileiro, a instabilidade continua relevante porque influencia os custos de importação de combustíveis, especialmente do diesel, além de afetar fretes e margens ao longo da cadeia.

Etanol sobe nas usinas, mas continua competitivo nas bombas

O mercado de etanol apresentou movimentos diferentes entre produção e revenda.

Entre 17 e 21 de agosto, o indicador Cepea/Esalq do etanol hidratado em São Paulo avançou 2,86%, enquanto o anidro subiu 5,05%. A valorização foi sustentada pela posição mais firme das usinas, que demonstraram menor disposição para negociar preços diante de uma situação confortável de caixa e armazenamento.

Nos postos, porém, o preço médio nacional do etanol hidratado permaneceu em R$ 3,91 por litro, segundo os dados mais recentes disponíveis da ANP. O combustível continuou economicamente mais vantajoso que a gasolina em dez estados e no Distrito Federal.

Na média nacional, a relação entre os preços do etanol e da gasolina ficou em 59,97%, abaixo dos 70% tradicionalmente utilizados como referência de competitividade para veículos flex.

ANP quer acompanhar mistura de biodiesel em tempo real

Outra movimentação importante foi a abertura de uma consulta pública para aprimorar o controle da mistura obrigatória de biodiesel no diesel.

A proposta permitirá que a ANP tenha acesso diário aos arquivos das notas fiscais eletrônicas das operações envolvendo biodiesel, diesel A e diesel B. Atualmente, boa parte do acompanhamento depende de informações mensais enviadas pelos próprios agentes regulados.

Com os dados fiscais diários, a agência poderá verificar com mais rapidez se os volumes de biodiesel adquiridos pelas distribuidoras são compatíveis com a quantidade de diesel B comercializada. A mudança busca ampliar a rastreabilidade e reduzir irregularidades na mistura obrigatória.

Fiscalização fecha o cerco sobre distribuidoras e crime organizado

A ANP revogou as autorizações de quatro distribuidoras ligadas ao Grupo Refit: Rodopetro, Carinthia, Manguinhos Distribuidora e 76 Oil.

As empresas perderam requisitos cadastrais necessários para continuar operando após a cassação de suas inscrições estaduais no Rio de Janeiro e em Mato Grosso do Sul.

Em outra frente, o Ministério Público de São Paulo denunciou 16 pessoas investigadas por envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro associado ao crime organizado e ao mercado de combustíveis.

As investigações da Operação Carbono Oculto apontam a utilização de postos, distribuidoras e instituições financeiras para movimentar recursos ilícitos. Um relatório da Polícia Federal estima que mais de 10 milhões de litros de metanol tenham sido desviados para utilização irregular na cadeia de combustíveis.

Petrobras planeja ampliar capacidade de produção de diesel S-10

No campo dos investimentos, a Petrobras autorizou o início do processo de contratação de uma nova unidade de hidrotratamento na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, a Repar, no Paraná.

A instalação projetada terá capacidade para processar 5.500 metros cúbicos de diesel S-10 por dia. Se os projetos semelhantes previstos para a Repar, a Refap e a Replan forem definitivamente aprovados, a capacidade de produção de diesel S-10 da Petrobras poderá crescer aproximadamente 70 mil barris por dia.

A estatal ressalta que o início da licitação ainda não representa uma decisão definitiva de implantação do empreendimento.

Perspectivas para o mercado

A semana terminou com uma combinação de alívio parcial no preço internacional do petróleo e manutenção das incertezas relacionadas ao abastecimento e aos custos de importação.

No Brasil, os subsídios seguem como uma das principais ferramentas para amortecer o choque externo. Ao mesmo tempo, fiscalização, rastreabilidade e combate à atuação irregular ganham espaço na agenda regulatória.

Para distribuidoras e postos, os próximos dias exigirão atenção especial ao vencimento das medidas emergenciais, à evolução do petróleo e do câmbio, aos preços do etanol nas usinas e às novas exigências de controle da mistura de biodiesel.

Até o fechamento desta matéria, a ANP ainda não havia publicado o levantamento consolidado dos preços nas bombas referente à semana de 24 a 28 de agosto. Os dados nacionais mais recentes abrangem o período de 16 a 22 de agosto.