Gasolina cara, etanol desigual e sem alívio à vista: o que você precisa saber sobre combustíveis no Brasil

O brasileiro que parou no posto nos últimos meses já sabe: abastecer ficou mais caro desde o começo do ano — e a tendência não é de melhora no curto prazo. A combinação de aumento de impostos, nova composição da gasolina e preços díspares entre estados forma um cenário de atenção para quem depende do carro no dia a dia.

ICMS sobe e puxa preço desde janeiro

O ano de 2026 começou com um reajuste silencioso, mas sentido no bolso. Desde 1º de janeiro, o ICMS sobre combustíveis subiu R$ 0,10 por litro em todos os estados, passando de R$ 1,47 para R$ 1,57. O resultado apareceu imediatamente nas bombas: na primeira semana do ano, o litro médio da gasolina no Brasil alcançou R$ 6,29 — alta de 1,1% em relação ao final de 2025.

O reajuste segue determinação da Lei Complementar 192/2022, aprovada pelo Congresso Nacional, que prevê atualização periódica do valor fixo do tributo estadual.

Gasolina E30: mais etanol, mas não necessariamente mais barato

Desde agosto do ano passado, a gasolina vendida nos postos passou a ter 30% de etanol em sua composição — a chamada E30 —, ante os 27,5% anteriores. O governo federal também elevou a octanagem de 93 para 94 RON, o índice que mede a resistência à detonação do combustível. Quanto maior o número, mais eficiente a queima.

A medida tinha promessa de reduzir o preço ao consumidor em até R$ 0,20 por litro, estimativa que foi posteriormente revisada para R$ 0,13. Na prática, porém, o efeito não se materializou de forma clara para o motorista.

“Se vão precisar de mais etanol para produzir a gasolina, aumenta-se a procura. As margens são apertadas; é um negócio de escala em que tudo pode interferir no preço”, explicou Ana Mandelli, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP).

Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), reforça a imprevisibilidade: “No Brasil, os postos de combustível são livres para determinar o preço. Existem custos pulverizados na gasolina que vão além do próprio valor do litro.”

Confaz atualiza tabela base do ICMS para maio

Em abril, o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) divulgou os novos valores do Preço Médio Ponderado ao Consumidor Final (PMPF), que passaram a vigorar em 1º de maio em todas as 27 unidades federativas. Esses números servem de base de cálculo para o ICMS e abrangem gasolina, etanol, gás natural, querosene de aviação e óleo combustível.

A variação entre estados é significativa. No etanol hidratado, os valores de referência vão de R$ 3,12 por litro no Amazonas a R$ 6,78 no Distrito Federal. No querosene de aviação, a diferença é ainda mais expressiva: de R$ 2,44 no Rio de Janeiro a R$ 7,19 em Roraima — reflexo das distâncias logísticas e da estrutura tributária de cada estado.

Sem perspectiva de queda

Para especialistas do setor, não há horizonte definido para o barateamento da gasolina. O preço envolve uma cadeia complexa: custo de refino, tributos federais e estaduais, margens de distribuição e de revenda. Cada elo pode amplificar ou absorver variações — e, no Brasil, os postos têm liberdade para precificar dentro desse contexto.

A recomendação prática para o consumidor segue sendo pesquisar antes de abastecer. A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) divulga semanalmente uma síntese de preços por estado e capital, disponível no site da agência e em aplicativos de comparação.

Fontes: ANP, Confaz, IBP, CBIE, Sincombustíveis, Fecombustíveis