O mercado automotivo brasileiro está passando por grandes mudanças. Isso está ligado ao tipo de propulsão. Vemos cada vez mais carros elétricos e híbridos nas ruas. E é o que eu vou analisar hoje à luz dos dados quantitativos disponíveis.
Começando com este gráfico de emplacamentos mensais desde 2020, no qual nós vemos que, como sempre, os carros com motores flex são os líderes de longe, mas há uma nova categoria que está aumentando gradualmente o seu espaço.
Neste outro gráfico de emplacamento de carros e comerciais leves, desconsiderando aqueles a diesel, vemos de forma mais clara o quanto esse fenômeno do aumento da participação de carros elétricos e híbridos é recente. Praticamente não existia antes de 2023.
Usando estes dados para calcular a participação do mercado, em janeiro último os elétricos e híbridos atingiram 19% do mercado de automóveis e comerciais leves, sendo que um ano atrás eram só 10% e no começo de 2023 apenas 4%.
E aqui é importante analisar quem são os players que fazem parte desse mercado. Em 2025, segundo dados da Fenabrave, 50% dos carros híbridos eram de marcas chinesas e, entre os carros elétricos, foram 85%. E, para fazer frente a isto, as montadoras tradicionais estão se movendo: por um lado, lançando versões híbridas de seus carros, e por outro, se protegendo da concorrência estrangeira via uma futura retomada do imposto de importação, que hoje está reduzido para este tipo de propulsão. Mas esse é um tema que eu deixo para o Duquesa de Tax analisar em sua coluna de amanhã.
A seguir, eu mostro dois gráficos que explicam muito desse aumento de popularidade nos carros elétricos e híbridos. Começando com a relação de preço gasolina e energia elétrica. Basicamente aqui temos uma divisão do preço do litro da gasolina dividido pelo quilowatt-hora da energia elétrica residencial. Estima-se que quando essa relação é de 2,5 vezes, a energia elétrica já passa a ser vantajosa. Importante: aqui a gente está falando de custo energético por quilômetro, não custo total por quilômetro, que é algo que rende discussões longas porque aí entra depreciação do carro, manutenção, e é uma análise muito mais complexa e demorada e possivelmente ainda não temos os dados históricos suficientes para fazer um bom comparativo.
No Brasil, o litro da gasolina custa em torno de 7 vezes o preço do quilowatt-hora de energia elétrica residencial, que é mais ou menos a relação que vale também para a Europa e Estados Unidos. Mas é interessante observar que na China essa relação é ainda mais favorável: lá o litro da gasolina custa 18 vezes mais que o quilowatt-hora da energia elétrica. Então para eles é mais vantajoso ainda que para nós, o que explica em grande parte a enorme popularidade desse tipo de propulsão lá, que hoje tem mais de 50% do mercado. No caso da Noruega, que também tem uma relação de preço parecida com a da China, o market share dos carros elétricos e híbridos é recorde no mundo: é mais de 90% (nota: o único país dentre os pesquisados pelo Global Petrol Prices no qual o custo energético/km é claramente favorável a motores a combustão interna é a Venezuela, devido ao preço da gasolina ser simbólico).
À medida que o preço da gasolina aumenta em função de instabilidades globais ou o preço da energia cai em função da produção própria com placas solares, a tendência é que essa relação se torne cada vez mais vantajosa para os carros propelidos com motores elétricos ou híbridos.
Eu considero este último gráfico o mais impressionante de todos. É o preço por quilowatt-hora das baterias de íons de lítio. Em 1991 custava mais de 9 mil dólares; hoje em dia são 78 dólares. É uma queda de mais de 99%. Só nos últimos 7 anos essas baterias caíram 50% de preço, e a queda vai continuar. É algo que nós, consumidores, vemos no dia a dia, porque a diferença de preço entre carros elétricos e os de combustão interna, que há poucos anos era enorme, vem diminuindo a cada ano. Inclusive em algum momento isso deve equacionar o problema do custo da reposição da bateria, que hoje ainda é um valor considerável e potencialmente inviabilizaria manter um carro depois de um certo tempo.
Em poucas palavras, aqui no Brasil vemos um fenômeno que está acontecendo em escala global e que mexe muito com o mercado porque, na história, já vimos isso muitas vezes: quando da entrada de uma nova tecnologia, players antigos são colocados para fora do mercado e players novos entram no mercado. E possivelmente essa mudança que está acontecendo agora é a maior já ocorrida na história de mais de 100 anos da indústria automobilística.